25/02/08

O GOVERNO FEZ-SE AO MAR

Esta noite o Governo decidiu fazer-se ao mar.
Reunidos os Ministros nos gabinetes uns dos outros decidiram:
Arrumar as bóias com pescoços de patos, os decretos, as bússolas, olharam o céu, os ventos, as marés e então todos juntos embarcaram em Belém. No caís ficou um País.
Sem bóias com pescoços de patos, sem decretos, sem rumo, sem céu, sem vento e sem mar.
Mas ali no Mar da Palha viram o País cada vez mais ao longe. Viram como as pontes eram pequenas, viram como os comboios eram antigos, viram como os Professores gritavam, viram como os aeroportos eram de lego, viram os Bancos a brincar, viram os Hospitais a cair, viram como o povinho tinha que ter "formação", Vêem como os meninos vêem um brinquedo.
Depois agarraram-se às bóias com pescoços de patos. E comeram a bússola.

02/02/08

O CARTEIRO

Abriu a porta e viu que era o carteiro de outros tempos. Abriu o tempo e viu que eram cartas antigas com textos recentes. Abriu-as. Olhou o tempo e sorriu-lhe. Lá longe viu o carteiro de outros tempos. Levava as cartas antigas com textos recentes.

31/01/08

MAR

Naquele dia mergulhou num mar à procura de um peixe e não voltou.

Os homens reunidos chamaram o fundo dos mares. E ele veio com rochas nas costas, algas na cabeça e olhar de água, mãos de peixe e cabelo de ondas brancas. Pediram-lhe ajuda, falaram com ele e disseram-lhe: Sendo ele tão imenso como podia ter acontecido não encontrar um homem?

Nesse momento o grandíssimo mar abriu a boca e saíram caravelas com marinheiros antigos. Peixes nunca vistos e ondas aprisionadas havia anos. Cabeças de dragões e adamastores com tridentes.

Em pânico os homens fugiram da praia.

Eram milhares de homens em fuga terra adentro. Eram tantos, tantos que o mar decidiu fechar a boca. Nesse momento o mar que tinha invadido a terra dos homens, chamou as as caravelas, os marinheiros antigos, as rochas, os peixes, os dragões e os adamastores com tridentes.

Mas os marinheiros antigos não o ouviram. Na manhã seguinte, quando foram ver os seus barcos o mar já não lá estava.

25/01/08

SONHOS CAIADOS

Quando partir ficarão as paredes caiadas de sonhos.
As velhas caiadas de preto irão perguntar por mim aos pássaros do jardim.
Mas quando o Tejo for grande tão grande como os sonhos vou- lhes bater à porta.
Depois, vou caiá-los de muitas outras cores.
Mas quando voltar só terei que voltar a caiar os velhos sonhos.

12/01/08

O CAOS NA FNAC.

Nesse dia a Fnac fechou como era hábito às 24h. Nesse noite como era costume ficaram as estantes a suportar os livros. Os grandes, os pequenos, os romances, a poesia, os policiais, os infantis a banda desenhada e tantos outros.
Mas nessa livraria também habitavam músicas de muitos continentes. Muitas, mas muitas dessas músicas também tinham letras, poemas, romances e claro eram de todos.
Nessa noite como em todas a luz apagou-se por volta das 24h. Como também era hábito os romances quiseram sair das estantes. E saíram. Pé ante pé lombada a lombada. Depois, Chamaram a poesia que andava muito escondida os policiais que andavam sempre por perto. Os infantis sempre na brincadeira, a banda desenhada e tantos outros. Todos reunidos decidiram chamar as personagens, as paisagens, os mares, os céus, as árvores, as casas, os comboios, as charretes, os mordomo, os amantes, os castelos, os animais. E eles saiam. Saiam os mares, os céus, as árvores, as casas, os animais. Eram milhares de homens, mulheres, crianças, velhos, novos, japoneses, franceses, belgas. Eram paisagens tão diferentes, céus de tantas cores. E tantos os campos. Eram tantas as as aves que saiam voando.
Todos se cumprimentavam uns mais efusivamente que outros. Outros nem tanto. Ainda se gerou alguma perplexidade com as épocas. Depois, falaram dos seus autores, das suas épocas
eram tantas as coisas. Tantas tantas que se perderam nos tempos.
Depois, trocaram de roupas, de pares, comeram os jantares uns dos outros, montaram os cavalos, viajaram de zepelim, beberam os vinhos e ouviram as músicas e ainda dançaram noite dentro.
Quando começou o dia a raiar a confusão era tanta que já poucos sabiam onde era a sua estante. Depois, começaram os abraços, as vénias, os beija mãos, as trocas de direcções, os convites para se visitarem uns aos outros nas paginas numero tal. Encheram-se os zepelins as charretes montaram-se os cavalos,encheram-se os comboios.
Num ápice todos voltaram às suas estantes, às suas épocas, às suas páginas. Aos seus autores. Todos os mares mergulharam nas suas páginas, todos os céus, todos, mas todos.
Só a musica se ouvia quando soaram as nove horas e a porta se abriu.

09/01/08

MANDOU SEMEAR O MAR

Mandou semear o mar de flores silvestres e navega por ele. Depois, mandou semear um bosque de árvores azuis e voltou a remar, remar. Nesse momento sente-se a voar. Voou, voou e pousa nas nuvens. Depois, conta uma história à ave errante. Parte a lua em quartos, as estrelas em pontas e dá-a aos bandos que passam por ali. Depois, rema, rema e encontra um barco perdido entre uma tempestade de nuvens.
Mas mandou semear o mar de flores.

26/12/07

A LUA DE FACA E GARFO

Andava um lápis amarelo e preto a rabiscar e a escrever naquela terra. Todas as manhãs e todos os dias o lápis escrevia nas paredes, desenhava nas portas, deixava recados, fazia reclamações que ninguém entendia. Um dia de manhã cedo quando os homens que não sabiam escrever acordaram, viram o lápis sentado numa mesa ali no meio do largo. O lápis chamou-os e eles vieram um a um. Então, o lápis lá disse: Contem-me tudo tudo.
E os homens contaram, contaram, contaram e o lápis escreveu, escreveu, escreveu. Mas de repente formou-se uma longa fila. Todos queriam contar-lhe qualquer coisa para ele escrever. E todos queriam ver os papéis, as letras, os movimentos circulares do lápis. No fim do dia todos tinham um papel com letras, muitas letras feitas num papel branco. Nesse fim de tarde o lápis afiou-se, mas os homens quando viram o seu tamanho a reduzir-se gritaram em coro: Não! Não! Nessa noite em todas as casas as mulheres questionaram os maridos, os filhos, as cunhadas, os vizinhos questionaram os vizinhos.
Na manhã seguinte o lápis lá estava de bancada montada. Mas, nesse dia só iria ler o que lhe fora contado pelos homens. A notícia correu de boca em boca e de um momento para o outro a praça encheu-se de gente. Tanta gente que mal cabiam na praça.
Às 10h o lápis pôs-se de pé e anunciou: que iria proceder à leitura do que fora dito no dia anterior por todos os presentes e não só.
Começou por ler o que lhe tinham contado os homens mais velhos. Mas nesse momento ouviu-se um ronco colectivo e muitos dos velhos caíam uns por cima dos outros.
Então o lápis parou de ler e disse: Vêem como um lápis é poderoso! Vêem como?
Depois ou outros ajudaram os mais velhos a pôr-se de pé. Mas quando o lápis disse: Agora vou ler tudo, tudo, tudo. Nesse instante ouviu-se um: Não! Não! Então, todos disseram em coro: Mas nós não contá mos nada! Nada!
E o lápis disse: Nada? Então vocês não me contaram que o Regedor é louco? Não me disseram que o homem come a Lua de faca e garfo? Não me contaram também ele voa num zepelim? Que come balões com letras? Gaivotas? Que ouve os Santos no céu? E ainda, que o zepelim é feito de ouro? Que o Regedor de noite se transforma em lobisomem? Pois olhem bem para mim! Olhem! Fiquem sabendo vocês também que ele não existe! E vocês são desenhados por mim!